segunda-feira, julho 11, 2005

O meu amigo

"Revi a cidade. A Praga daqui. Aprendi a gostar mais dela com você.

Durante a transmissão, com os olhos grudados na TV, eu revi a cidade que aprendi a gostar e respeitar mais atravez das tuas linhas, ouvi falar dos escritores que me interessei a ler depois dos teus textos e me senti feliz. Feliz, num dia de tristezas infundadas, de vazio.

Me senti parte daquilo tudo, como se fosse parte de você. Do meu amigo. De Curitiba. Da Praga daqui."

Ela releu algumas vezes o texto, embalada pelo frio de julho, e pensou que aquela também era a cidade da sua familia. Mas o que importa? Agora, de alguma maneira, ela percebeu que não era mais. Agora era a cidade dele. E pra sempre seria.

terça-feira, junho 14, 2005

Outono

"Senti o teu cheiro no metrô. O mesmo onde eu reparei na tua existência.

Tive saudade. Saudade da paixão que senti. Saudade daquele tempo. Saudade do timbre que me acalmava. Da luz. Era a esperança do novo, da ousadia. Saudade do que não fizemos. Saudade de qualquer coisa que possa fechar uma rima vazia.

Saudade do que, de fato, não existiu, mas de alguma forma nos ligou.

Saudade."

E nessa altura ela questiona qual a diferença entre a realidade e o sonho, se ao final, mesmo os sonhos chegam ao fim?

segunda-feira, junho 06, 2005

Paradoxo Emocional

Era só uma imagem, mas uma imagem que deixou saudade. Ela já é acostumada a gostar de imagens...

Olha as fotos, lembra do rosto e do tempo. Ficou tudo pra trás. Tem diante de si um paradoxo curioso: tem saudade de uma imagem convivendo com o real. Era uma imagem carregada de nuances e expectativas.

Ela sente que não foi além do que deveria, fez tudo certo. O procedimento foi correto, a falha veio de fora. O desejo não redimiu a covardia.

Mas ficou a imagem. Ficou a saudade. E a perspectiva de que a a vida, apesar disso, vai ser muito melhor....

domingo, maio 15, 2005

Ao Todo

Enquanto escreve, ela sente que a cabeça alivia. Talvez tenha entendido essência do problema.

"Bem-vinda de volta energia sem nome que me confunde os sentidos e me faz participar da vida. Bem-vinda de volta e paciência com as minhas projeções.Tentarei não lhe dar nem olhos azuis, nem olhos vidrados. Tentarei não fazer de você o principe que não existe e nunca existirá, nem o sexo que nunca redimiu e nunca redimirá. Nem os vicios. Vicios e carências a serem entendidos ...A minha verdade vai surgir. Além das palavras."

Se bem que, por hora, ela sabe que as palavras têm sido suas únicas companheiras.


By Luisa

quarta-feira, maio 11, 2005

Zhong Fu - O Sonho

Os dois caminhavam lado a lado num terreno onde as palavras não tinham mais efeito. Arredores de almas opacas, sebentas, pequenas. A linguagem, como eles a conheciam e atravez da qual eles conseguiam tão bem expressar tudo que aprendiam, simplesmente não tinha o menor efeito. Não naqueles arredores.

"Porcos e peixes são os menos inteligentes entre os animais e, portanto, os mais difíceis de influenciar. É necessário que a força da verdade interior chegue a um grande desenvolvimento para que possa exercer influência sobre tais seres. "

Era preciso irradiar essa verdade. Mas onde ela estava?
Atravez da presença um do outro, podiam sentir que essa verdade existia. Que era essa verdade que precisava transbordar. Era essa a verdade além das palavras que atingia e iluminaria tudo. Mas onde ela estava?
Como olhar toda a mediocridade em volta e compadecer-se. Como aceitar toda a ignorancia e estupidez e mesmo assim ter generosidade para deixar a sua verdade transbordar?

Ela não sabia. Apenas sentia, no espaço onirico alheio, que talvez essa seja a proxima etapa.

sexta-feira, maio 06, 2005

Juta

_Fecha meus olhos.

_O quê?!

(ela sabe que tudo que passar atravéz deles será analisado, dissecado e classificado. E nesse momento tudo que ela precisa é apenas sentir e deixar ir.)

Ele pega a primeira coisa que vê na frente com uma certa afobação, porque sabe que essa chance não irá se repetir. Enquanto amarra a tira de juta crua, áspera, ele observa em silêncio. Uma vez fechada essa "janela" ele perde a pressa, se sente mais íntimo.
Rodeia essa imagem nova e a puxa do banco alto de forma brusca deixando-a em pé no meio da sala. Essa imagem indefesa lhe agrada. Nesse momento ele pode ver. Ele é o senhor.

Sem seus olhos, ela se sente pequena. Está nua sem estar. É apenas uma mulher.
E agora, pode ouvir os passos lentos e abafados a sua volta. Sente o ar na sua nuca: ele está bem perto e toca de leve a blusa dela ordenando, baixo, que a tire de vez.

Ela se permite obedecer, sem saber direito onde está, e desabotoa a blusa de tecido frio devagar desenhando em sua mente as sensações e o corpo que agora, ela sabe que tem.

segunda-feira, abril 18, 2005

Insônia

Rolou na cama durante um bom tempo e quando levantou, levantou de medo. Todas as suas "verdades transcendentes" viraram fantasmas e cobranças que não a deixavam em paz. Sentiu-se esquecida por Deus. De novo. Sentiu-se atrasada. Sentiu-se impotente e futil. Um bibelo inútil na vida de todos.

E sentindo tudo isso sentou-se no micro e escreveu. Escreveu, escreveu, escreveu... "escrevendo vc não se sente tão só" - lembrou. Mas a solidão e a dorzinha incomoda continuaram... escreveu, escreveu e escreveu... Colocou toda a dor pra fora sem disfarce e se assustou com o que leu.

Melancolica conclusão: "poxa. quanto mais eu acho que estou perto, de repente percebo que estou longe, longe demais de tudo. Será que o poço está sendo revestido ou será que ele foi esquecido..." Pensou no pai, na mãe, em todas as pessoas querida próximas, em seus problemas e sentiu-se impotente... E escreveu até os dedos doerem.

Mas não publicou: Por algum motivo, o texto sumiu da tela num daqueles incidentes de que só a informática é capaz...

Ficou perplexa com a perda do registro das suas dores...

E da tela, como quem brinca, surge a janelinha:

"Guardian Angel diz:
vc consegue mudar a opiniao do mundo... menos a sua... acho q é hora de vc pensar nisso, não?"


Ah, as maravilhas da informática... Que transformam bits em anjos...

segunda-feira, abril 11, 2005

O Silêncio

Ela sente que começa a pisar num terreno perigoso. E que uma vez que se decida a tentar, não vai sair ilesa: tudo tem um preço e ela começar a sentir o valor disso. É uma sensação engraçada, sensação de resignação. De responsabilidade e coerência consigo mesma. Ela sabe como parar, mas não sabe se deve. Na verdade não sente que deve.

Antes, ela podia brincar de devanear. Mas isso foi antes. Agora, é tudo ou nada. E ao contrário da sensação que teve todos esses dias, não sente mais a necessidade de sentir-se segura. Sabe, ou pelo menos começa a sentir, que a vida está de novo a chamando, desta vez, um chamado bem sutil. Parece ser a experiência que ela precisava.

Isso talvez custe caro. Talvez.

O silêncio a absolve de toda a especulação de antes. No silêncio que foi imposto a sua vida agora, ela vai começar a sentir as respostas. E desta vez vai tentar seguí-las.

quinta-feira, abril 07, 2005

A invasão bárbara

Introspecção. Ela se sentia sozinha. De novo. E triste.

Não mais via isso de uma maneira ruim. Claro que a tristeza e a decepção eram ruins, mas ela sentia alguma coisa de importante estava acontecendo: desconfia que, de novo, ela estava sabotando a sua passividade.

Já há algum tempo estava se sentindo incomodada, mas não conseguia fazer nada conscientemente. Cada vez mais fica claro que atitudes, e não palavras, são o que contam.
Ela se deixou ir e não teve força para voltar sozinha. Agora era preciso voltar. Era preciso um motivo e ela tinha um. Involuntário a principio, mas que colocava bem a mostra as feridas. Tempo de fechar-se e curar feridas.

Enquanto isso, ela sabe, lá no fundo, que vai sentir falta do carinho das pessoas.

segunda-feira, abril 04, 2005

A amadora

Era assim que ela se sentia. Uma negociante amadora que jogou tudo que existia de importante e precioso dentro de si na dança como se não fosse nada. Ou melhor, como se fossem apenas fichas. Só que agora ela percebe que as fichas eram douradas. Eram todo seu tesouro. Que ela deu de mão beijada em troco de um relacionamento que está se tornando cada vez mais cinza. A grande ironia foi perceber que ao mesmo tempo que faltava tão pouco para ser perfeito, faltava tudo. Tudo... Ela não devia ter passado por cima de si mesma dessa forma. Mas passou.

_Ô Luisa, vc nunca teve dessas frescuras... Você não sabe o que quer da vida, não?

Ela deu todas as fichas. E o pior: vendeu a imagem errada.

terça-feira, março 15, 2005

A gravidez

_Sonho estranho o dele.

_É, sabe lá o que vc está fazendo "nascer". Bom, até quinta.

_Até quinta.

Ela seguiu andando e pensando: mesmo agora que tudo está morno e sua atenção está voltada em cuidar e nutrir o que tem, essa chamada inconsciente a perturbou.
Não com a mesma intensidade de antes, afinal, antes ela investia no que acreditou ser a única experiência que realmente valeria. E talvez fosse a sua última tentativa de sentir-se como todo mundo, com suas paixões e tesões. Mas as coisas tomaram outro rumo, um rumo que ela ainda não tentara entender.

O carinho que ela achava que era mais seguro dos sentimentos, percebe ser o mais dificil deles. E que já vai ter muito trabalho tentando entendê-lo e aplicá-lo em sua vida. Está feliz com isso. Está feliz com os resultados até agora. "Ele se condensa no ar, e, vapor azul e verde, entra pela minha boca. Isso de forma alguma é ruim. Não é como Orfeu e Eurídice...". Aos poucos ela vai encontrando o caminho.

Mas há sempre a outra possibilidade. "sabe lá o que vc está fazendo nascer nele"... Ela tem um pouco de receio de que essa tranquilidade passe. Porque no fundo, bem no fundo, duas mulheres ainda existem, e uma delas continua perigosa. Ela ainda não sabe se essa está sendo transformada ou subjulgada.

De qualquer forma, enquanto a tranquilidade continua, ela chega em casa, se sente em paz, dorme. E sonha com os problemas do trabalho.

quarta-feira, março 02, 2005

A Borboleta

Sono, carência e frio - três coisas doces de se sentir. Ela estava sozinha, podia fazer o que quisesse mas preferiu apenas curtir a solidão. Organizou coisas, tocou um pouco... Mas os acordes sairam mecânicos: transformar sensibilidade em música naquele momento a deixou ansiosa... Tentou escrever um pouco, mas não sentia o pincel.

Observava a noite pela persiana e sentia um vazio grande. Mas dessa vez, diferente do que sempre foi, não era um vazio autocentrado que existia por si, era mais a percepção do vazio em função da tremenda necessidade de "preencher". Tremenda. Mas não há ninguém. Pelo menos não agora. Será que é dessa "falta" que as pessoas falam? Não sabia.

De qualquer forma, já passava da uma da manhã quando decidiu que iria dormir. Checou o fogão, as janelas, a porta... "Cáspita, eu tenho certeza que acabei de catar os envelopes do chão!". Olhando melhor, com a luz acesa no corredor do prédio, percebe que esse envelope fora colocado nauquele momento. "Merda, eu odeio mala-direta".

"Menina,
Teu corpo parece grande, mas eu vejo o quanto é delicado, sinuoso, quase inseguro. Teu espirito parece forte, mas eu vejo que tem brechas, muitas brechas escondidas pro mundo. Mas não pra mim.
Meia-noite de uma bela noite. A noite perfeita. Entro na sua casa às 2:15am e na sua vida logo depois.
Eu sei que eu posso. A porta vai estar aberta."

Ela sorriu. Surpresa não seria bem o termo, no fundo ela sabe que essa é a ordem que as coisas devem seguir. Por mais insólita que pareça, a noite foi feita para os sonhos. Zhuang Zi e sua borboleta vieram a sua mente.

Sono e estrelas: por via das dúvidas, ela voltou à sala, destrancou a porta, apagou as luzes e dessa maneira, concretizou a realidade que precisava. Ou o sonho. Não importa.

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

O Cafajeste

Ele não é mais doce como antes.

Percebe-se no olhar. Ela gosta de ver aquele olhar duro, arrogante. Agora mais que nunca, ele se permite assumir cada vez mais suas posições, seus gostos e principalmente seus ódios. Essa arrogância, a sexualidade tosca, a masculinidade dominadora e poderosa. Todo homem quer sentir-se forte. Porque não?

Ela sabe que ainda falta muito chão pela frente, que mesmo a mais dura das personalidades têm de fletir-se um pouco para não se quebrar. Talvez a vida ensine, talvez ele compreenda. Não se sabe, mas o que ela vê muito a agrada. O primeiro esboço de um obra prima! Um homem senhor de si e de suas vontades!


O gelo está sendo quebrado, ele se despe do glacê e encarna de vez o personagem. Isso é bom e se ver.
É um bom laboratorio e mesmo não sendo verdade, ela gosta de acreditar que tem um dedo nisso. Segue acreditando, até que os saltos se quebrem e os calcanhares voltem para o chão.

terça-feira, fevereiro 22, 2005

Esse é um espetáculo solo

Essa sensação de desamparo às vezes vem com tanta força que a deixa assim, cansada, desarmada. Mesmo com tanta gente importante perto de si, mesmo no lugar certo, e pricipalmente - mesmo sabendo que esse desamparo é parte importante de seu processo de descoberta.

"Conhecer por conhecer é um contra-senso. Está na hora de não adiar mais respostas."

Ela gostaria de estar sendo observada, de ter alguém que realmente quisesse tê-la por perto, que realmente quisesse descobrí-la e não se intimidasse com as suas reações de auto-proteção. Mas ninguém chega mais perto do que ela permite, porque ela aprendeu muito bem como se proteger.
Essa porta não será aberta por ninguém além dela mesma. Nenhum herói virá para salvá-la, como nas suas fantasias infantis. Quando suas pernas bambearem, é bom que exista alguma superfície por perto, isso será tudo que poderá apoiá-la...
Não existe outra pessoa no trapézio, infelizmente ou felizmente, sabe-se lá.

So, lonely girl, keep going. Aprenda seu timing nesse espetáculo. Isso é tudo para esse momento. E, pode ter certeza, já vai ser um trabalho bem complicado.

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

A poça.

“Tranqüilidade? Não. Acho que é só vazio. Ou melhor, lembra um pouco um intervalo. Um intervalo entre coisas já definidas. Porque eu estou definindo cada vez mais minha vida. Já sei onde estou e pra onde quero ir. E pra onde eu quero ir, com certeza, não é esse deserto dos sentidos. Por isso esse é um intervalo. Somente um intervalo.”

Ela sempre fica apreensiva com esse vazio, que não parece ruim, não é desesperador, mas incomoda. Olha as coisas e não as vê como gostaria. Não as sente como gostaria.
A melancolia é seu melhor tempero, mas desconfia que poderia cair na chatice, se tornar uma pessoa melancolicamente maçante. Exagerar o tempero.
A medida certa para esse tempero é a paixão. E a paixão tem estado ausente. Tudo ficou muito técnico.

Não se via mais como algo que pudesse ser jogado fora, ignorado... Quando se olhava no espelho, gostava do que via pela primeira vez na vida e sentia muito por não estar podendo compartilhar isso com ninguém, seja por qual motivo for: falta de interesse, de sensibilidade, de perspicácia... Sabe-se lá.....

Muita gente sem visão. Tanta gente com potencial e sem atitude. Ela se cansou de gastar tempo e energia tentando fazer pau virar pedra.

"Uma poça será sempre uma poça. Assim como um lírio nunca será uma tulipa e uma banana, bom, uma banana nunca será o que realmente quer ser..."

domingo, fevereiro 06, 2005

Rendas

Amanhece.

Releu pela quarta vez a história, mas dessa vez foi diferente. Dessa vez, em alguns trechos, chegou a cobrir o rosto com as mãos enquanto lia, constrangida. Porque agora a estranha tinha nome, tinha rosto. Não era mais estranha e não estava mais incógnita.

Era como se estivesse nua. Ou melhor, coberta apenas em uma renda de palavras que mais mostrava que escondia. Que ressaltava a voluptuosidade da personalidade que começava a descobrir. Mostrava tudo que ela ainda não conseguia mostrar de verdade...

"Já é um começo" pensa.

Ela descobre o rosto, sorri marota. Respira satisfeita e vai dormir.

Igualdade

....where do i go from here
will i get over you...

“I must get over you. I must.”
“Mas Luisa, porquê?”
“Agora nós estamos em pé de igualdade”
“Em quê, meu Deus, em quê?!”

Silêncio.

Os lábios dele arquearam-se numa forma grave. Ela sabia reconhecer isso melhor que ninguém. O chão sai dos pés do menino e ele deu lugar ao homem.

Esse é o homem que ela quis, que ela sempre desejou mas só aparece nesses momentos tristes. Por esse homem ela se arrastaria pelo chão e suplicaria perdão. Por esse homem, talvez, ela nunca tivesse se aventurado. Mas esse, esse aparece apenas para recolher os cacos e se retirar.

_Já está feito
_É, já está.

Silêncio. Ela sabe o que isso significa. Sabe que não vai ter discussão. Ela sabe que nunca vai ter a chance de dizer o porquê. O quanto dói para ela sentir-se medíocre como mulher.

Ela briga consigo mesma, naquela tensa fração de segundo...“mas ele ficou contigo, garota, não ficou? O que está errado depois de tanto tempo?” “E daí? Estar junto não é prova bastante! Pensar dessa forma é um atalho de pensamento... Burocracia emocional. Talvez companheirismo só, seja bom para os velhos, mas eu não sou velha ainda!!!! Eu não quero um relacionamento burocrático. Eu não quero sentir a sua consideração e o seu respeito. Nesse momento, isso me envenena! Será que vc não vê?!?!?! Não vê?!?! Eu não quero que você fique comigo por consideração!!!! Está feito, sim, e essa é a hora em que você pode me provar que você me quer além do que é correto. Como eu te quis. Só assim eu realmente vou acreditar em você.”

Essa atitude era o jeito dela de dizer tudo isso sem palavras, mas o que se seguiu a deixou vazia. Um vazio aterrorizante!

Tell me where does the fool go
When know that something missing
Tell me where, Where will i go from here!
Where do i go from here!

O gato

Os pelos brilhavam negros, sedosos.

Ela sempre se encantou com isso e, raspando a unha no tecido áspero do sofá, seguia provocando o bichano. Gosta de sentir os dentinhos nos dedos, enquanto as patas seguravam sua mão, brincalhonas. Essa falsa luta. Ele sabia o quanto lhe aprazia a sensação e exatamente por isso ficava lá, imóvel. Criando tensão. Muito tempo, como se nem percebesse que ela estava ali. E no momento em que ela esquecia, ele vinha majestoso, pulando, arqueado e atacava. Voraz. Brincalhão.

Brincalhão? Não sabia. “Ele sabe o momento de atacar”. Conclui: “Eu ainda não”

E divaga : “Ah, rapaz” pensa “ Você pensa que está fora da minha mira? Engana-se. Você nunca estará. Com certeza não. Eu estou um pouco cansada, mas continuo voraz. Criando tensão, aprendendo a atacar... Questão de tempo...”

Pega o bichano no colo, como a um nenê, imobilizando-o. Só pra ela....

espaço negativo

Tudo o que ela queria era um beijo. Uma confirmação de tudo o que ela acreditava que poderia ser. Mas essa confirmação não veio. Não veio e nunca virá. Nenhum sinal. Porque não era pra ser. E nunca será.

Tão triste quanto certo. O grande fracasso. A grande fracassada que ela é.

A grande fenda era bem maior do que ela jamais pensou que poderia ser. Muito maior. E engoliu tudo. Não existe nada além de olhos ocos.
"omini festinatio ex parte diabli est"