domingo, fevereiro 06, 2005

A fenda

Ela se pergunta, porque não conseguiu reagir.
As palavras faltaram, ela só conseguia ver o vazio, a grande fenda que estava se formando como um rasgo na sua vida. Ele estava sendo arrancado dela a seco, descaradamente. Ela não conseguiu reagir “Peito maldito que me faz perder a objetividade. Para que serve o que brota daí senão para sabotar a minha clareza e tirar a certeza das minhas ações? Imperdoável. Porque agora, quando está tudo perdido, você simplesmente não deixa ir e dorme? DEIXA IR! VAI! Não, não vai. Não vai e não irá. E dói, e põe hastes nos meus olhos: eles não se fecham, não descansam. ....”

Virou pela última vez na cama. Como não conseguia dormir, ela desceu. Colocou o par de meias pretas, a saia, a blusa. Vulto, sai sem fazer barulho. No elevador completa a decadência com batom. Um vermelho vulgar que deixa sua boca fina e contida fantasiada de luxuria. 7º, 6º, 5º, 4º, 3º “Eu não quero encontrar ninguém.”. 2º, 1º... Estava fora.
Ela sabia que nesse horário o movimento estava forte. Começou a andar bem devagar, com a cabeça vazia. Tinha que afogar de alguma maneira essa sensação de impotência. Venha o que vier. Buzinas, luzes. As mulheres andavam por cima de saltos e bueiros. Rápidas. Cheiro. O submundo.

_Quanto é? Ela pára. Mantém o olhar para frente
_O que disse?
_Quanto é, princesa? Com o frieza e a crueldade que reservara para si, olha em direção ao carro velho. Alguns vultos escuros transparecem pelos vidros.
_Pula fora, cara, essa não é puta.
_Vocês estão em quantos? Sorriso podre.
_Cinco.
_Ok, Me deixem entrar. A gente se acerta. Estava feito.
_Aê, tesuda, entra aê. Dois dos vultos pulam para fora e a colocam para dentro, no banco de trás. Levantam os vidros escuros.

As hienas riam-se, salivavam e cercavam a presa. Com certeza estraçalhariam-na num ritual desordenado e chulo. “para achar-se é necessário perder-se”. Não foram muito longe, o carro era grande o bastante. Pararam na frente do galpão vazio na segunda travessa. A sem saída. Repartiam entre si a carne do animal abatido. Gemiam e pingavam sobre ela. Sem saída. O cheiro, o asco, a dor, o ódio. Sem saída. Ela passa de presa a fêmea e goza selvagem como num desafio a si mesma. A noite inteira.

...

Abre os olhos. Apesar do calor, ela veste sua cacharrel preta, sua melhor cara e sai para o trabalho. A noite tinha deixado marcas, rastros esverdeados. Redentora dor de carne, anestésico da alma.
Olha a cidade e não pensa em nada. A paisagem entra pelos olhos e ocupa tudo.
Prédios casas ponto cachorro galho
...
8:30 poste luz farol pedestre
...
ponto banco degrau calçada calçada calçada calçada
...
Entra ainda de cabeça vazia.
_Bom dia gente.
_Bonjour ma belle.
_Oi amiga!
Reflexo dos óculos. _Oi Luisa.
“Oi luisa, oi luisa... luisa... Luisa sou eu. Eu, verbo, saio da tua boca. Volto, carne, quando você quiser.”
Reflexo dos olhos. _Você está muito bonita. Ontem e hoje.

Sorri de cabeça baixa. “E sempre, por você. Até que a fenda se abra de vez e nos engula toda a beleza, inspiração e alento.”

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"omini festinatio ex parte diabli est"