domingo, fevereiro 06, 2005

Cantigas

_ Sobe comigo. (a boca mexe, o som não sai)
_ Ah, eu preciso ir. Brigado.
_ Eu não estou te convidando. Eu estou te dizendo pra subir comigo.
A ficha não cai. O olhar dela é duro, assusta um pouco. Silêncio. Silêncio. Cai.
_ Certo.

Ele a vê dar as costas com o mesmo ar impassível com que falou. Toca a campainha, empurra a porta. Não encara o porteiro. Dama de gelo. Ela treme por dentro. Não sabe ao certo o que vai fazer. Ele passa. Está dentro. Chão de pastilhas. Elevador. Ele está apreensivo. Já havia percebido qualquer coisa mas não contava agora com isso. “Ela sabe de mim. Ela não está sozinha...”. Sorri amarelo. Gelo. Ele olha para o relógio, para os andares no marcador, para o espelho atrás deles. A luz é fria. Pensa em falar, de novo. Desiste. Gelo, luz fria, paredes de inox.

Oitavo andar, portas brancas:
_ Entra. - Casa zoada, micro ligado:
_ Senta. - Falsa casualidade:
_Quer uma água, um refrigerante? - Ele senta. Sofá abismo, sofá espinho.

Ele se sente um personagem dos contos que costuma ler. Isso de certa forma o agrada.
Ela sai de trás da bancada da cozinha, segue até a varanda e levanta a persiana como se ele não estivesse ali. Controla-se, respira, tenta fazer um movimento após o outro.

(como nos filmes, ela gostaria de ter o domínio da situação. ou de ter magnetismo suficiente para seduzi-lo, mas percebeu que esta não era sua linguagem, era muito mais uma “buddy” do que uma “lover”. o galanteio, o xaveco, não eram coisas nas quais acreditava. sentia-se muito mais a vontade dizendo o necessário sem pressionar.seria terrível perceber que alguém sentiu-se pressionado a “dar conta da fêmea”. era, de fato, intolerável.)

A vista fora da janela – “nessas situações costuma se fazer o contrário, fecham-se as cortinas.... Oras, pretensioso!” Ele se desliga dali com a vista do mar, à noite. Imenso. Embevecido.
_Danny boy. A voz dela, seca e melancólica, seu olhar voltado para a corda e a janela derrubam-no novamente ao sofá. Sofá abismo.

(ela sabe que não tem muito a oferecer. não se vê interessante. num flash se enxerga como uma grande fachada. o grande cenário, ousadia de papelão, majestoso forte que oculta nada além de um casebre na beira de um rio. simplório. ninguém se contentaria em fincar bandeira nesse território... mas o céu desse lugar agora brilha e reflete o azul daqueles olhos. que não dê para ser grande coisa, mas pelo menos deixem-na mostrar o quanto brilha. azul. algo do que se orgulhar.)

_Posso me sentar do teu lado? - Nessas situações ele não consegue fugir das frases curtas.
A boca mexe, os olhos vidram, o som não sai. _ Pode.
Sofá gangorra. Será preciso, agora, ele se equilibrar ali. É pagar pra ver. Ela se senta. Escorrega um pedaço de papel dobrado no bolso da camisa dele. Existe coisas que não se sabe porque se faz, mas sente que se deve fazer.

A voz sai baixa, meditativa, como se nem ela mesma soubesse disso.
_ Você me acalma. Deixa eu encostar a cabeça no teu peito. Silêncio. O brim áspero e beje, o perfume peculiar invade. Aquele perfume que parece só ela sente.
As crianças lá embaixo brincam no calçadão. Noite de novembro.

“Papagaio loro
Do bico dourado
Manda essa cartinha pro meu namorado
Se estiver dormindo
Bata na porta
Se estiver acordado
Mande o recado...”
Ela acabou de deixar o seu recado.

Um dia ou dois mais tarde ele lê o que ela colocou no bolso da camisa. Talvez entenda o que ela quis dizer naquele quarto de hora em que ficou com a cabeça no seu colo olhando o céu. Apenas olhando para o céu.

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"omini festinatio ex parte diabli est"