Como de costume, depois de algum tempo na frente do monitor, ele ergue um pouco a blusa, abotoa a calça e se levanta com um passo meio hesitante. É de uma naturalidade excitante. Excitante por ser inconsciente.
Fogo. Ela se mexe na cadeira. Disfarça. Corpo de homem. Pele branca, os pêlos. Ela respira, fala baixo: _Preciso de água - e sai da sala.
Anda pelo corredor branco e claro seguida por algum íncubo reincidente que lhe turva a lucidez. Tudo parece embotado quando sente-se empurrada para dentro do banheiro masculino – “é o que você quer, cadela?” Essa é a voz. Cai num solavanco debruçada na pia. Fria. “Toma.” Pelo reflexo do espelho ela vê a feição demoníaca escondida em algum lugar daquela personalidade hesitante. Demônio. O demônio e a mulher. Tranco seco. “Aai!” – “Cala boca mulher!” . Sente a renda ceder. Sente-se formigar, inchar, lacrimejar.
As pernas amolecem: barulho na porta. Antes que pudesse pensar, ela se vê dentro de um reservado, rosto pressionado contra as pastilhas da parede. Os corpos continuam se movendo com violência, mas em silêncio. Um silêncio esganado, ardido. Homens lavam suas mãos discutindo o campeonato. Números de latrina. Escondidos, trapaceiros em pleno expediente. Ele sabe exatamente como ele a quer e a maneira que faz isso. Era do que ela precisava. Ela geme, não se contém. Mão na boca, o gozo é quase inevitável.
Os olhos dela estão vidrados. Sente as mãos molhadas. “Luisa!” Essa é a voz.
_Luisa, Luisa, pára!
_Ahn?!? _Luisa, a garrafa já está cheia... Fecha a torneira!
_Ah, é. Desculpe...
_Ê “Luccia” onde está sua cabeça?
Vê o súcubo. Escondido novamente em algum lugar daqueles olhos mansos.
_De fato, eu não estava longe. Ela responde e olha no fundo da alma dele procurando vestígios do que ela sabe que ali existe.
Ele pega a garrafa de água da mão dela e voltam para sala. Mas dessa vez, ele sentiu. Sentiu no corpo o olhar sombrio dela. Teve medo. E tesão. Mas tentou esquecer.
...
Quando chegou em casa naquele dia e olhou os olhos lúcidos e tranqüilos do seu menino, percebeu que era importante conhecer seus demônios: sendo ouvidos não poriam em risco a vida que ela havia escolhido. Desta forma, ela o abraçou com uma ternura que nunca havia se permitido antes, feliz por conseguir fazê-lo sem ansiedade, dando tudo de cristalino que a relação merecia. Dorme encostada nas costas dele, como de hábito, e sonha que não quer mais participar da peça. Quer apenas assistir. Sai da arena de terra batida que não tem palco e vai embora.
domingo, fevereiro 06, 2005
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"omini festinatio ex parte diabli est"

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